Confissões de uma nutricionista

Pensei muito se deveria escrever sobre este tema, mas acho sempre importante dividir minhas experiências. Acho que elas foram fundamentais para me tornar o que sou hoje. E, para dar continuidade à nossa coluna de nutrição, queria fazer algumas reflexões. Saibam que quero muito saber de vocês, ouvir as opiniões e também sugestões de pautas. Falem comigo sobre o que quiserem!! E para já ficarmos íntimos, vou contar um pouquinho mais de mim e da minha relação com a comida. 

Durante toda minha infância fui uma criança extremamente seletiva e “chata” pra comer. Chocolates, bolachas e salgadinhos eram minhas preferências. Lembro de todos os malabarismos feitos pelos meus pais para me fazerem “engordar e crescer”. 

Como na infância e adolescência era magra, a primeira vez que fui em uma nutricionista estava fazendo cursinho, queria emagrecer e perder medidas (quem nunca?). Lá me esforcei para comer coisas que não gostava e nem estava acostumada e, apesar de não ter nenhum prazer, consegui atingir o peso que desejava.

Até entrar na faculdade, a única fruta que comia era maçã e os vegetais passavam bem longe. Mas como fazer para ser saudável, se não sentia prazer em comer nenhuma fruta ou verdura? Contar calorias seria uma opção, compensar o chocolate com exercício poderia ser uma alternativa. Mas não. Até porque nunca me conformei com o fato de que a regra calórica era a ideal, e matemática nunca foi meu forte.

Na época da faculdade morei por quase um ano nos EUA. Em dois meses lá aumentei 12Kg na balança, sim, 12Kg!! Morava num local muito frio e me abastecia de muito chocolate quente, cookies, massas e batatas fritas. E minha ideia de que não tinha facilidade para engordar foi por água abaixo junto com as minhas roupas, que já não entravam. Passei o restante dos meses tentando manter o peso, porque perder estava quase impossível. E foi então que tentei minha segunda dieta, ainda sem noção do que realmente era “saudável”, passei a consumir salada (alface e tomate) com molhos industrializados, kani kama, peito de peru e mais uma infinidade de produtos light e pouco calóricos, como toda “boa” dieta recomenda.  

E estou contando tudo isso pra vocês porque todo mundo diz, mas você é magra, não tem que se esforçar. Só posso dizer que tenho um FTO homozigoto, traduzindo, é um dos primeiros polimorfismos associados à obesidade, avaliado no exame genético, que me coloca em um grupo com 257% mais chance de desenvolver obesidade do que o restante da população. Sei que parece grego, mas prometo escrever pra vocês só sobre este tema uma outra hora.

Até agora falei apenas de peso, não falei aqui das amidalites de repetição, anemia, bronquites, alergias e gastrites que me acompanharam durante todo este tempo. À medida que fui incluindo uma variedade maior de alimentos na minha rotina, fui percebendo que precisava de algo mais, continuava doente e não estava convencida de que era só isso.

 Sentir prazer em comer sempre foi algo intrínseco pra mim. Como nunca tive muita “tendência” a engordar, minha relação com o ato de comer sempre foi prazerosa, sem culpa. E quando comecei a estudar mais sobre dietas, mais entendi que mudar a forma como as pessoas se alimentam é muito difícil, pois a comida carrega muitas emoções, experiências e lembranças. Comer não se resume a sobreviver, mesmo que muitas pessoas pensem assim. 

Costumo dizer hoje no consultório que dieta, você sempre fará mais uma e mais uma. Do ponto de vista financeiro, posso dizer que seria um negócio excelente pra mim. Do ponto de vista profissional e da saúde, acho a maior furada. 

Hoje, depois de muito trabalho, estudo e experiências comigo mesma e, com os pacientes, estou convencida de que precisamos tratar as causas e elas são a base de todo o restante. O auto conhecimento vindo da nutrição funcional e do Ayurveda me proporcionaram muito mais equilíbrio e saúde, com muito menos sofrimento!

Aqueles 12Kg levaram 2 anos para desaparecer. Hoje são poucos os alimentos que realmente não como. Aprendi que provar primeiro e mais de uma vez é fundamental. Que comida boa é comida de verdade , sem muita invenção de moda mas sempre com muito sabor e prazer. E vamos falar muito mais sobre isso daqui pra frente.

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