O luxo encontra o improviso na nova instalação de Tom Sachs. Batizado de “31 Rue Cambon”, o projeto recria uma boutique inteira da Chanel dentro do estúdio do artista no SoHo, em Nova York, utilizando materiais simples como papelão, madeira, tinta, vidro e fita adesiva.
Com abertura ao público marcada para 11 de setembro, durante a New York Fashion Week, a instalação faz referência ao histórico endereço da maison em Paris e reproduz alguns de seus elementos mais reconhecíveis. Da fachada com os icônicos dois “Cs” aos interiores, praticamente tudo remete ao universo Chanel — mas nada é exatamente o que parece.

No lugar de couro, tweed e metais preciosos, Sachs aposta em materiais cotidianos para construir bolsas, sapatos, joias, lustres e até os tradicionais tailleurs da grife. Entre os destaques estão 31 conjuntos Chanel recriados à mão, inspirados em looks usados por nomes como Naomi Campbell, Elizabeth Taylor e Olivia Rodrigo.
As peças são pintadas sobre placas de madeira e recebem diferentes técnicas para reproduzir visualmente as texturas dos tecidos originais. Pentes, tinta, polímeros e até gel de pedra-pomes entram no processo artesanal. As imperfeições, em vez de serem escondidas, fazem parte da estética característica do artista.
Os acessórios seguem a mesma lógica. Broches misturam strass e peças de Lego, enquanto os tradicionais slingbacks aparecem reconstruídos com papelão e madeira. Até um dos famosos lustres associados ao apartamento parisiense de Coco Chanel ganhou uma interpretação inusitada, produzida com objetos como refletores de bicicletas e pesos de pesca.



A instalação também provoca uma reflexão sobre valor, desejo e consumo. Materiais que custam poucos dólares são transformados em objetos imediatamente associados a uma das maisons mais luxuosas do mundo, embora algumas peças exijam mais de dez dias de trabalho para serem concluídas.
Apesar da presença constante dos códigos visuais da Chanel, “31 Rue Cambon” não é uma colaboração oficial com a marca. O projeto foi desenvolvido de maneira independente por Sachs, que há décadas explora em sua obra a relação entre grandes marcas, cultura de consumo e fabricação artesanal.
O resultado é uma boutique onde absolutamente tudo parece familiar, mas nada está à venda. Ao substituir o luxo dos materiais pelo trabalho manual e pela improvisação, Tom Sachs desmonta os símbolos da Chanel para mostrar o quanto uma marca pode continuar reconhecível — e desejável — mesmo quando seus objetos são reduzidos a papelão, tinta e madeira.